MANAUS – Uma operação deflagrada na manhã desta sexta-feira (20) pela Polícia Civil do Amazonas revelou a atuação de um braço do Comando Vermelho infiltrado em setores estratégicos da administração pública. De acordo com as investigações, o grupo criminoso mantinha um núcleo político com conexões nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário para facilitar o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro no estado.
Até o momento, 14 pessoas foram presas, sendo oito no Amazonas. A Justiça expediu 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão, cumpridos em Manaus e em outros seis estados: Pará, Minas Gerais, Ceará, Piauí, Maranhão e Bahia .
Servidores públicos na mira
Entre os alvos no Amazonas estão nomes com vínculos diretos com instituições públicas:
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Anabela Cardoso Freitas – integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus e ex-chefe de gabinete do prefeito David Almeida (Avante) , cargo que ocupou até 2023. A gestão municipal reforçou que não é alvo da operação e que o prefeito não é investigado .
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Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM)
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Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) e professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA)
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Osimar Vieira Nascimento – policial militar
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Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar
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Alcir Queiroga Teixeira Júnior – apontado como peça-chave em movimentações financeiras suspeitas
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Bruno Renato Gatinho Araújo – investigado por participação direta no esquema
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Ronilson Xisto Jordão – detido em Itacoatiara (AM)
R$ 70 milhões em movimentações ilícitas
Segundo a Polícia Civil, a organização criminosa movimentou aproximadamente R$ 70 milhões desde 2018, uma média de R$ 9 milhões por ano. O esquema utilizava empresas de fachada nos ramos de transporte e logística para adquirir drogas na Colômbia, abastecer Manaus e redistribuir os entorpecentes para outras regiões do país .
As investigações tiveram início após a apreensão de 500 tabletes de maconha skunk, sete fuzis de uso restrito, duas embarcações e um veículo utilizado na logística do tráfico. A partir desse flagrante, a polícia conseguiu mapear a estrutura hierárquica da organização, com divisão de tarefas entre núcleos operacional, financeiro e de apoio logístico .
Lavagem de dinheiro e vazamento de informações
Relatórios de inteligência financeira revelaram movimentações bancárias incompatíveis com a renda declarada dos investigados. O grupo também é suspeito de tentar obter informações sigilosas sobre investigações em andamento para blindar integrantes e antecipar ações policiais – prática que segue sob apuração .
Posicionamento das instituições
Diante da repercussão, órgãos públicos envolvidos se manifestaram:
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TJAM – informou que abriu procedimento administrativo e não compactua com desvios de conduta .
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UEA – declarou que a professora citada responde por atos pessoais, fora do âmbito acadêmico .
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PMAM – instaurou processo disciplinar contra o cabo preso e colabora com as investigações .
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Prefeitura de Manaus – reafirmou que não integra a investigação, que David Almeida não é alvo e que eventuais servidores envolvidos responderão individualmente .
A Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal de Manaus ainda não se pronunciaram oficialmente.
Crimes imputados
Os envolvidos poderão responder por Organização criminosa, Tráfico de drogas e associação para o tráfico, Corrupção ativa e passiva, Lavagem de dinheiro, Violação de sigilo funcional e Ocultação de patrimônio.



