EDITORIAL – O Amazonas investiu R$ 196 milhões em um sistema de saúde digital vendido como solução moderna para ampliar o acesso da população ao atendimento médico. No papel, a proposta é sedutora: tecnologia encurtando distâncias, agilizando consultas e garantindo eficiência. Na prática, porém, o que se vê é um retrato preocupante de desperdício, falhas operacionais e frustração coletiva.
A denúncia feita pelo ativista e profissional da saúde Michael Lemos escancara um problema que vai além de um episódio isolado. Um paciente aguardando atendimento em uma cabine, sem conseguir sequer estabelecer contato com um médico, não é apenas uma falha técnica, é o símbolo de um sistema que não entrega o que promete. Quando a tecnologia não funciona, ela não aproxima: ela afasta.
O contraste se torna ainda mais grave diante do volume de recursos públicos envolvidos. São quase duzentos milhões de reais destinados a uma iniciativa que, na prática, não consegue garantir o básico. Ao mesmo tempo, profissionais da saúde terceirizados enfrentam atrasos salariais e incertezas, evidenciando uma gestão que parece priorizar contratos robustos, mas negligencia quem sustenta o atendimento na ponta.
A saúde digital deveria ser uma aliada do sistema público, não um obstáculo. Deveria reduzir filas, ampliar o acesso e melhorar a qualidade do atendimento. No entanto, o que se observa é um modelo que, até aqui, levanta dúvidas sobre sua efetividade, transparência e, sobretudo, sobre suas prioridades.
A população não precisa de promessas tecnológicas , precisa de atendimento que funcione. Precisa de médicos acessíveis, sistemas operacionais e gestão responsável. Porque, no fim, saúde não é discurso, nem vitrine de inovação: é serviço essencial. E quando falha, o impacto não é estatístico , é humano.



