EDITORIAL – Administrar Manaus não é tarefa simples. Uma cidade com mais de dois milhões de habitantes, problemas históricos e interesses que muitas vezes caminham em direções opostas exige mais do que autoridade. Exige capacidade de sentar à mesa, ouvir lados diferentes e, principalmente, encontrar soluções.
É uma característica que começa a aparecer com frequência na gestão do prefeito Renato Júnior.
O episódio mais recente ocorreu diante da ameaça de uma nova greve dos rodoviários. Uma paralisação do transporte coletivo não atinge apenas empresas, sindicatos ou governos. Atinge diretamente o trabalhador que precisa chegar ao emprego, o estudante que depende do ônibus e milhares de famílias que simplesmente não têm outra alternativa de deslocamento.
Segundo o presidente do Sindicato dos Rodoviários de Manaus, Givancir Oliveira, a greve prevista para esta quinta-feira foi suspensa após a Prefeitura de Manaus se comprometer a realizar o pagamento da parcela atribuída ao Governo do Estado no financiamento do sistema.
É preciso deixar claro que a decisão não encerra todos os problemas do transporte público. Ainda existem discussões sobre financiamento, responsabilidades entre Estado e município e a continuidade da gratuidade dos estudantes da rede estadual. São questões que precisam de respostas e transparência.
Mas há um aspecto político que merece ser observado.
Em vez de transformar imediatamente o impasse em mais uma guerra pública entre Prefeitura e Governo, a gestão municipal optou por intervir para impedir que a população fosse diretamente prejudicada. Depois, naturalmente, cada ente terá de discutir suas responsabilidades.
E essa não é a primeira vez que Renato demonstra disposição para dialogar com diferentes frentes. Em uma política cada vez mais marcada pela polarização, conseguir conversar inclusive com adversários não deveria ser tratado como fraqueza. Muitas vezes, é justamente isso que permite governar.
Há uma diferença importante entre vencer uma discussão e resolver um problema. Para quem depende do transporte coletivo, pouco importa qual autoridade conseguiu a melhor frase nas redes sociais. Importa saber se haverá ônibus passando no dia seguinte.
Isso também não significa transformar cada intervenção da Prefeitura em mérito absoluto do prefeito. O papel do jornalismo é acompanhar os resultados, cobrar responsabilidades e observar se essa capacidade de articulação será mantida quando surgirem crises maiores.
Ainda assim, é difícil ignorar o estilo que começa a aparecer.
Renato Júnior assumiu uma cidade complexa e, até aqui, tem demonstrado que administrar não significa apenas assinar ordens ou executar obras. Governar também é mediar conflitos, construir pontes e entender que, algumas vezes, será necessário conversar justamente com quem está do outro lado.
Contexto do Dia: em tempos em que muitos políticos parecem mais interessados em descobrir quem ganha a discussão, talvez a população esteja interessada em algo muito mais simples: quem consegue resolver o problema. Se Renato Júnior transformar diálogo em uma característica permanente da gestão, esse poderá ser um dos seus principais ativos à frente de Manaus.



