Manaus (AM)- Em meio a uma crise de credibilidade na saúde pública, o governador Wilson Lima adjudicou a gestão do Complexo Hospitalar Leste a uma organização social de índole duvidosa. O contrato com o Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (Ideas) tem valor de R$ 1,969 bilhão e vigência de 60 meses.
A decisão, formalizada em setembro de 2025, entrega ao Ideas o controle operacional de duas unidades vitais: o Hospital e Pronto-Socorro João Lúcio e o Hospital e Pronto-Socorro da Criança da Zona Leste. Na prática, a OSCIP passará a gerir desde a compra de equipamentos até a contratação de equipes e o funcionamento de setores sensíveis, como trauma, cirurgia e UTI.
A escolha do Ideas ocorre em um momento delicado. A organização é citada em reportagens nacionais que apuram denúncias de negligência e mortes de bebês em uma unidade de Santa Catarina. Enquanto isso, no Amazonas, o Ministério Público Estadual investiga contratos da própria Secretaria de Estado de Saúde, expondo falhas na gestão dos recursos públicos.
O contrato bilionário surge, portanto, como um contraste preocupante. Em vez de fortalecer o controle interno e a transparência, o governo opta por delegar a terceiros a administração de serviços de saúde essenciais, sem mecanismos robustos de fiscalização pública.
Uma das maiores críticas ao acordo é a falta de transparência ativa. O edital prevê auditorias internas, mas não obriga a publicação periódica de indicadores clínicos para a sociedade, como taxas de mortalidade e infecção. A população fica, assim, sem acesso a dados que permitam avaliar a qualidade do serviço prestado.
A transferência de um complexo hospitalar estratégico para uma OSCIP com denúncias em outra região exige um controle exemplar. A efetiva publicação de metas, a realização de auditorias independentes e a divulgação de resultados são medidas indispensáveis para evitar que um contrato de alto valor coloque em risco a vida da população.



