Manaus (AM)- Entre os anos de 2020 e 2025, a Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc) do Amazonas, administrada pelo governador Wilson Lima, aplicou a soma de R$ 1,99 bilhão em contratos com empresas privadas. O objetivo declarado dos gastos era melhorar a qualidade do ensino público. No entanto, o investimento bilionário não se refletiu na sala de aula.
A prova mais contundente desse fracasso veio com o resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 2025: o Amazonas ocupou a última posição no ranking nacional, o pior desempenho de sua história. O estado se tornou o último colado mesmo após a destinação de R$ 428,7 milhões, uma parte específica do orçamento, em programas, consultorias e materiais voltados exclusivamente para a preparação dos alunos para essa prova.
A gritante contradição entre o volume de recursos gastos e o resultado catastrófico chamou a atenção dos órgãos de controle. O Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) aprovou uma inspeção extraordinária para examinar os 100 maiores contratos da Seduc. O conselheiro Érico Desterro, que apoiou a medida ao lado de Ari Moutinho Júnior, classificou a situação como uma “inaceitável discrepância entre o volume de recursos e os resultados alcançados”.
O caso também foi encaminhado ao Ministério Público estadual e federal, além da Polícia Federal, para investigar possíveis irregularidades, como superfaturamento e conluio entre gestores e fornecedores.
O dinheiro que não comprou qualidade
A trajetória dos gastos revela uma escalada sem o devido retorno. Os contratos, que eram de R$ 83 milhões em 2020, dispararam para R$ 604 milhões em 2023. Enquanto o orçamento explodia, a realidade nas escolas piorava: além do último lugar no ENEM, o estado registrou aumento na evasão escolar, no analfabetismo funcional e na deficiência de aprendizado.

Muitas dessas contratações foram realizadas sem licitação, utilizando mecanismos como a adesão a atas de preços de outros estados, o que favoreceu um grupo específico de empresas.
Quem lucrou com a educação amazonense ?
A maior parte dos recursos bilionários foi concentrada em um pequeno grupo de empresas, muitas delas localizadas no Sudeste do país. A campeã de repasses foi a Multiverso das Letras Distribuidora Ltda, de São Paulo, que recebeu sozinha R$ 850,5 milhões da Seduc.

Outras empresas que se destacaram nos repasses foram a Poranduba Consultoria Educacional (R$ 178 milhões), a Sudu Inteligência Educacional (R$ 104 milhões) e a MVT Educação (R$ 102 milhões). Juntas, essas companhias foram responsáveis por uma fatia majoritária dos gastos, em contratos para fornecimento de material didático, plataformas digitais e consultorias pedagógicas que se mostraram ineficazes.
Os responsáveis pela gestão
Esse modelo de contratações foi iniciado sob o comando do então secretário Luís Fabian Barbosa. Curiosamente, após deixar a Seduc, Barbosa foi nomeado conselheiro do próprio TCE-AM, tribunal que agora investiga os gastos da pasta que ele mesmo comandou. Atualmente, ele é vice-presidente da corte.
Seus sucessores, Kuka Chaves e a atual secretária, Arlete Mendonça, deram continuidade ao padrão de contratos. A atual gestão herdou uma secretaria com as finanças comprometidas e a reputação manchada, gerenciando um sistema educacional caro e ineficaz, que custou bilhões aos cofres públicos sem conseguir alterar o triste cenário da educação no estado.



