MANAUS – O deputado federal Capitão Alberto Neto (PL-AM) voltou a gerar debate nas redes sociais após publicar, no fim de semana, um vídeo em que aparece cantando “Roda Viva”, composição de Chico Buarque de 1967. A escolha da música — reconhecida como um dos símbolos da resistência à ditadura militar — chamou atenção pelo contraste com a postura política do parlamentar, aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro e defensor do regime instaurado em 1964.
A canção, escrita originalmente como crítica à manipulação do artista pela indústria cultural, atravessou a censura militar e, com o tempo, ganhou forte caráter de resposta à repressão da época. Por isso, seu uso por um político alinhado ao discurso pró-ditadura causou estranhamento entre especialistas e parte do público.
No vídeo divulgado, Alberto Neto utiliza a música para ironizar o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), sugerindo favorecimento na instalação da roda-gigante da Ponta Negra. “O que dá para fazer em dois dias? Muita coisa. Mas, se você for amigo do prefeito, aí o milagre é maior”, escreveu o deputado na legenda.
USO POLÍTICO NA OBRA
A repercussão abriu espaço para discussões que vão além do embate político local. Para especialistas em comunicação e cultura, o gesto evidencia o uso descontextualizado de um símbolo histórico, transformando uma obra consagrada pela luta democrática em instrumento de ataque político.
Segundo analistas, a escolha da música acaba criando uma contradição narrativa: enquanto a obra remete à resistência ao autoritarismo, o parlamentar tem trajetória associada à defesa do período militar.
A polêmica também diz muito sobre a apropriação de obras artísticas no jogo político. “Roda Viva”, que já sobreviveu à censura, ao autoritarismo e às interpretações distorcidas de diferentes épocas, volta ao centro das discussões — desta vez, controversa, não por sua melodia ou contexto histórico, mas pela forma como foi utilizada e pelos sentidos que muitos insistem em desconsiderar.



